terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ode Mortal (excerto) - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Tu, Caeiro meu mestre, qualquer que seja o corpo


Com que vestes agora, distante ou próximo, a essência

Da tua alma universal localizada,

Do teu corpo divino intelectual...

Viste com a tua cegueira perfeita, sabes o não ver...

Porque o que viste com os teus dedos materiais e admiráveis

Foi a face sensível e não a face fisiognomónica das coisas

Foi a realidade, e não o real.

É à luz que ela é visível,

E ela só é visível porque há luz,

Porque a verdade que é tudo é só a verdade que há em tudo

E a verdade que há em tudo é a verdade que o excede!

Ah, sem receio!

Ah, sem angústia!

Ah, sem cansaço antecipado da marcha

Nem cadáver velado pelo próprio cadáver na alma

Nas noites em que o vento assobia no mundo deserto

E a casa onde durmo é um túmulo de tudo,

Nem o sentir-se muito importante sentindo-se cadáver,

Nem a consciência de não ter consciência dentro de tábuas e chumbo,

Nem nada...

Olho o céu do dia, espelha o céu da noite

E este universo esférico e côncavo

Vejo-o como um espelho dentro do qual vivemos,

Limitado porque é a parte de dentro

Mas com estrelas e o sol rasgando o visível

Por fora, para o convexo que é infinito...

E aí, no Verdadeiro,

Tirarei os astros e a vida da algibeira como um presente ao Certo,

Lerei a Vida de novo, como numa carta guardada

E então, com luz melhor, perceberei a letra e saberei.

O cais está cheio de gente a ver-me partir.

Mas o cais é à minha volta e eu encho o navio —

E o navio é cama, caixão, sepultura — E eu não sei o que sou pois já não estou ali...

E eu, que cantei

A civilização moderna, aliás igual à antiga,

As coisas do meu tempo só porque esse tempo foi meu,

As máquinas, os motores,

(...)

Vou em diagonal a tudo para cima.

Passo pelos interstícios de tudo,

E como um pó sem ser rompo o invólucro

E partirei, globe-trottrer do Divino,

Quantas vezes, quem sabe?, regressando ao mesmo ponto

(Quem anda de noite que sabe do andar e da noite?),

Levarei na sacola o conjunto do visto —

O céu e de estrelas, e o sol em todos os modos,

E todas as estações e as suas maneiras de cores,

E os campos, e as serras, e as terras que cessam em praias

E o mar para além, e o para além do mar que há além.

E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,

E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.

E será o Inesperado que eu esperava —

O Desconhecido que eu conheci sempre —

O único que eu sempre conheci,

E (...)

Gritai de alegria, gritai comigo, gritai,

Coisas cheias, sobre-cheias,

Que sois minha vida turbilhonante...

Eu vou sair da esfera oca

Não por uma estrela, mas pela luz de um estrela —

Vou para o espaço real...

Que o espaço cá dentro é espaço por estar fechado

E só parece infinito por estar fechado muito longe —

Muito longe em pensá-lo.

A minha mão está já no puxador-luz.

Vou abrir com um gesto largo,

Com um gesto autêntico e mágico

A porta para o Convexo,

A janela para o Informe,

A razão para o maravilhoso definitivo.

Vou poder circum-navegar por fora este dentro

Que tem as estrelas no fim, vou ter o céu

Por baixo do sobrado curvo —

Tecto da cave das coisas reais,

Da abóbada nocturna da morte e da vida...

Vou partir para FORA,

Para o Arredor Infinito,

Para a circunferência exterior, metafísica,

Para a luz por fora da noite,

Para a Vida-morte por fora da morte-Vida.


Afixado no mural por - Rafaela

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